Entrevista com Camilla do Pavilhão 9


Hoje no bancada em foco é dia de conhecer um pouco sobre Camilla, do pavilhão 9 Camila da sub sede de Sumaré, formada em serviços sociais, conta para nos como foi a escolha pela torcida "Eu conheci o Pavilhão através de amigos, antes de eu começar a frequentar eu não colava em estádio na época, não tinha uma influência pra isso. Quando conheci a torcida, eu conheci através da Subsede da minha quebrada, a Subsede de Sumaré", Cami também fala sobre o preconceito por ser mulher de organizada " O preconceito não vem só por você ser mulher ou por ser mulher na organizada, mas por que, isso já é enraizado a décadas atrás, onde a mulher não podia assistir futebol". 

O que o Pavilhão representa pra vc?
- Sem dúvidas pra mim o Pavilhão é uma torcida que defende causas sociais, principalmente pela sua história, pelo seu surgimento. Uma torcida que nos 90 minutos não para de cantar e apoiar o time. Pra onde o Corinthians for, está sempre junto. O Pavilhão pra mim é garra, é força, por tudo que já passou, as dores, os lutos, as vitórias, é uma entidade de garra.

Como foi sua entrada no pavilhão, e como foi a escolha pela torcida? 
- Eu conheci o Pavilhão através de amigos, antes de eu começar a frequentar eu não colava em estádio na época, não tinha uma influência pra isso. Quando conheci a torcida, eu conheci através da Subsede da minha quebrada, a Subsede de Sumaré. Minha primeira vez lá foi em 2017/2018, me senti muito bem acolhida, me senti em casa e em família, parecia que eu já conhecia todos a muito tempo. Fui muito bem recepcionada. Eu posso dizer com convicção de que não me vejo em outra torcida, parece que eu escolhi a entidade pra torcer, mas na verdade, eu acredito que foi a torcida que me escolheu. Eu poderia ter acesso na maior de todas que é os Gaviões, poderia também ter me associado na Estopim Campinas, mas na qual eu mais me identifiquei foi o Pavilhão, pela sua história de fundação, onde inclusive não foge muito da minha vida profissional. Bem antes de eu conhecer a história da minha entidade, eu já era apaixonada pelo Serviço Social. Eu tinha acabado de entrar na faculdade.

Hoje em dia, você sofre muito preconceito por ser mulher de organizada? 
- Essa é uma das perguntas que mais me fazem, e sim, com certeza. Eu vejo mais nas redes sociais, que no cara a cara. Pois hoje em dia, as pessoas se escondem muito através das redes. Já me xingaram, já disseram coisas absurdas por eu me expressar sendo torcedora. O preconceito não vem só por você ser mulher ou por ser mulher na organizada, mas por que, isso já é enraizado a décadas atrás, onde a mulher não podia assistir futebol, não podia jogar bola, não podia falar um palavrão. Hoje tudo mudou, mas infelizmente, ainda existem pessoas que vivem no passado. E não digo somente que o preconceito vem do homem, mas também vem de muitas mulheres. Dentro da torcida há sua ideologia. A mulher ainda é um pouco limitada nos dias de hoje, eu entrei na torcida, sabendo disso e não vou chegar com os dois pés na porta pra tentar mudar algo que já existe há anos. Não que queremos que mudem tudo, ou que pensem que queremos “dominar”, mas que podemos ter o nosso espaço ali dentro, onde podemos também ser ouvidas. Eu sinto que hoje em dia, a mulher vem se destacando nas torcidas, hoje são mais vistas e fico feliz que ao pouco as coisas vem melhorando.

Como é sua vinda para a capital paulista? 
- Caravana com a minha quebrada de Sumaré, aqui temos a nossa subsede que está com 99 associados. Sempre lotando as caravanas pra capital. E apoiando os 90 minutos o nosso Corinthians. 
Mas eu também já fui muitas vezes de linha, pegava um busão da minha quebrada pra outra, de lá pegava outro busão pra Jundiaí, e de Jundiaí eu pegava dois trem pra chegar em Itaquera. A viagem era de umas 3h até lá, cansativo mas tudo pelo Corinthians.
Hoje em dia, qual o maior desafio de um torcedor organizado? 
- Voltar com vida pra casa. É pesado, mas infelizmente, no meu ver o maior desafio é esse. Quem é de torcida organizada sabe de todos os riscos de uma caravana pra fora, seja na estrada, seja em jogo de guerra. 

Conta um pouco para gente quem é a Camila fora da bancada? 
- A Camilla, fora da bancada é uma mulher formada em Serviço Social, como profissional é assistente social atuante na área do terceiro setor. Trabalho em uma ONG da minha cidade. Eu também sou maquiadora profissional, mais por hobby porque sempre gostei. Sou do signo de Touro. Sou uma mulher eclética tanto pra gosto musical como pra homens hahahaha. Sou solteira, filha caçula e ainda moro com os meus pais, inclusive, meu pai é meu rival no futebol, infelizmente ele torce pro Palmeiras, minha mãe sempre em cima do muro, mas sempre querendo a nossa felicidade. É uma luta constante pra conviver com o meu pai quando nossos times se enfrentam. Sou uma mulher de pavio curto, quando não estou nos meus melhores dias (principalmente quando o Corinthians não ajuda), e quando mexem na minha comida hahahaha mas sempre sendo boa pessoa com todos que gosto e tenho por perto. Sempre estou disposta a ajudar quando precisam. Me acho muito engraçada e chorona, sempre demonstro meus sentimentos indiferente de qual seja do momento. Dizem que eu tenho dupla personalidade, a Camilla maloqueira em dia de jogos que fala palavrão pra caralh* e a Camilla princesinha em dias comuns… E eu concordo. Gosto muito do Instagram, de fotos, de se expressar através de músicas, fotos e vídeos. Eu me considero uma digital influencer no meu closet friend hahaha. Tem dias que sou caseira, tem dias que sou do rolê, quando estou em casa, curto dormir, assistir uma série. Quando estou no rolê, curto ir em um pagode, barzinho com meus amigos e se divertir muito até minha bateria social acabar hahaha. 


Já sofreu algum tipo de preconceito por ser de torcida organizada?
- Nunca sei se é por ser da organizada ou por ser só mulher. Mas no começo eu percebia muito os olhares de julgamento de pessoas próximas a mim, outros dizendo que eu sou louca, que ali não é lugar de mulher e sim de mulheres dos outros. No começo eu deixava me afetar muito, mas depois aprendi a lidar.  

Sem o Corinthians quem seria a Camila?
- Eu não faço ideia, sério! Com o tempo o Corinthians me ensinou muita coisa, eu não sou mais a mesma Camilla de 2018 quando entrou pra torcida organizada. Não que tudo que eu sou hoje é por causa do Corinthians, mas uma grande parte eu posso dizer que sim, porque o Corinthians, não é só um time que luta pra estar disputando os campeonatos, mas que luta por muitas causas importantes e nós fazemos parte disso. 


Hoje em dia, qual é sua visão sobre as torcidas organizadas? 
- A torcida organizada faz parte do futebol, faz parte do clube, é o maior protagonista do nosso futebol. No começo, antes de viver tudo isso, eu nem sonhava em ser de torcida, por conta de tudo que se via pela televisão. Hoje, muita coisa mudou, e hoje, vejo que as pessoas generalizam muito e muita coisa. E posso dizer com firmeza que torcida também joga.  

Conta um pouco para gente, qual sentimento de está em uma bancada apoiando o time? 
- Cara, pra mim é minha terapia, com certeza. É um sentimento de amor, de entrega entende? Ali você pode ser a sua versão mais louca de torcedor (a). Quando eu estou lá, eu esqueço todos os meus dias ruins, quando estou com o meu pessoal, no mesmo intuito de torcer, nada mais importa. Quando olho pro lado e vejo milhares de pessoas vibrando e sendo loucos pelo Corinthians, eu sinto que estou no lugar certo. Amo chegar e estar com minhas amigas e amigos, o sentimento é verdadeiro e sincero. 
Qual é a principal resenha de uma caravana que tu pode contar para nós?
- De quem vai pagar a dose hahahahaha, mas das que presenciei, grande parte é história da velha guarda de caravanas para fora. Sempre muito bom ouvir, eu particularmente gosto muito. 

Um assunto não relacionado ao futebol, mais aí, qual a sensação de ir no show do RBD? 
- MEU DEUS! hahahahaha até hoje não acredito que vivi esse sonho de criança. Não chega aos pés de ver o meu time ser campeão mundial, mas foi uma das maiores realizações pra mim. 

No dia 25 de janeiro conquistamos a copinha, e eu digo que o jogo foi paralisado por conta dos sinalizadores em um momento do jogo, queria saber qual foi a sensação de contribuir demais nesses título? Hahahaa 
- Craque do jogo: Pavilhão Nove! Mano, que momento, um misto de sentimentos. Nunca da pra descrever o que a gente sente quando está lá.

Qual é o sentimento de ver muitas das festas na bancada brecada pela PM? 
- O futebol esta cada vez mais chato e chucro. Não se pode nada. Eu sinto muito por eu não ter conseguido pegar o tempo do futebol raiz, onde se podia torcer de verdade. Ir em clássicos fora de casa, fazer uma festa linda na bancada, sem ser repudiado, ou de sentir medo da polícia.

De onde surgiu esse amor pelo Corinthians? 
- Eu nunca vou saber explicar, desde que me conheço por gente, sempre foi Corinthians. Claro, que tem as influências, minha irmã mais velha, ela é Corinthiana então, desde pequena ela me incentivou a ser Corinthians. Eu sempre acompanhava os jogos pela tv quando era mais nova, mas não tinha aquela noção do que era o futebol, não entendia nada. Eu sabia o time que eu torcia, o nome de alguns jogadores e pronto. Fui crescendo, fui aprendendo mais, pesquisando sobre, lendo tudo que aconteceu e acontecia com o club a cada jogo, até o momento de sermos campeões da libertadores e do mundial, foi a partir de 2012 que eu comecei a brigar na internet, na escola, com meus amigos, tudo por causa de futebol e pelo Corinthians, depois disso, não parei mais. Até hoje não consigo explicar o sentimento que existe. Eu só sei que ser CORINTHIANS é bom demais. É muito louco, eu não escolhi ser Corinthians o Corinthians me escolheu. Eu ia dizer que só quem é entende, mas nem nós entendemos.

Quais são suas principais influências quando se fala de Corinthians?
- Como eu disse, uma das minhas primeiras, é minha irmã, que me trouxe essa paixão, que inclusive, me levou no meu primeiro jogo do Corinthians, que foi em Campinas contra a Ponte Preta, e por nós duas termos feitos a mesma tatuagem do Corinthians juntas. Minha segunda influência, foi de amigos por terem me levado na arena pela primeira vez. Assim, hoje eu pude ser a influência de outros. 

Um assunto chato más sempre bom a gente aborda, e sobre assédio, já passou por algo parecido que possa compartilhar? E como saiu dele? 
- Graças a Deus não. Mas gostaria de deixar algumas palavras, sobre isso… Falar sobre a agressão sexual pode ser difícil para a vítima/sobrevivente. Sabemos que muitas vítimas/sobreviventes acham que as pessoas não vão acreditar nelas, que as culpem ou que sua experiência seja inadmissível ou minimizada. Se você foi assediada ou ainda seja, e deseja registrar a ocorrência da agressão na polícia, há algumas questões importantes para pensar. Isso oferece à vítima/sobrevivente mais controle e opções.
Uma vítima/sobrevivente pode optar por não informar à polícia, ou não fazer um exame médico ou de corpo de delito. É uma escolha pessoal e deve ser respeitada. Mas quero que saiba que você não está sozinha(o). Seja forte e corajosa(o). 

E hoje qual conselho você daria para uma pessoa que queira escolher sua torcida e começar a frequentar a bancada?
- A questão de localização, procura saber onde tem uma subsede mais próxima da quebrada, cola em um dia de jogo pra conhecer, ou ir ate mesmo na sede, trocar uma ideia com os lideranças, conhecer mais sobre a história da entidade, ouvir as caminhadas da velha guarda. E se sentir em casa, acolhida(o), se você sentir no coração que ali você pode torcer sem se sentir desconfortável, repudiado por outros, você está no lugar certo. Já se associe e vem fazer parte do bando de loucos. 


E ela também soltou a mão quando se trata de agradecimentos hahaha

Bom, primeiro eu queria agradecer a oportunidade de estar aqui através da bancada em foco, para dizer um pouco sobre minha vida, sobre minha experiência de fazer parte de uma torcida organizada, inclusive, sendo mulher. Acredito que há muitas outras histórias de outras mulheres parecida como a minha ou diferente. Mas acredito que o intuito é o mesmo. Acho muito importante ter esse lugar de fala, pois todos os dias as nossas lutas são constantes, diferentes e difíceis. 
Quero agradecer a minha irmã, por me trazer essa paixão esse amor pelo Corinthians, obrigada irmã. 
Agradecer ao Corinthians, por me escolher. 
Agradecer também a minha subsede Sumaré por me ensinar e continuar aprendendo sobre ser torcida organizada, por serem a minha família nesse meio da torcida, ao Pavilhão Nove, por tudo que há anos atrás já passaram, no recente presente também, é uma torcida muito FODA! Não poderia estar em outra. 

“É listrado a sua roupa, essa torcida é muito louca, é a torcida pavilhão, preso por uma só paixão, por amor ao Coringão”.

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