Entrevista com a fotografa do Estopim da Fiel Camila

 


A entrevistada de hoje do nosso quadro "minas da arquibancada" Camila Vieira. A fotografa frequente de estádio desde 2019. Contou para nós como conciliar a vida pessoal e profissional, ela também fala um pouco de seus projetos pessoais como a cobertura fotográfica da taças das favelas, projetos como ensaios de rua, ela abre o jogo também a sensação de fotografar uma torcida organizada. 



Conta um pouco para nós de onde surgiu esse amor pela fotografia?

- Desde pequena sempre me interessei por artes. E dentro dessa linguagem eu tinha a necessidade de tudo que eu via e gostava, queria registrar de alguma forma como lembrança através de desenhos. Aí quando tive o contato com meu primeiro celular com câmera, facilitou com que eu pudesse fazer tudo isso. E hoje é a minha principal ferramenta de trabalho e comunicação. 

Hoje em dia, como é sua vida com vários projetos?
- Olha, eu queria poder me multiplicar para conseguir fazer vários dos projetos que eu tenho conhecimento tanto pelo coletivo, como pro individual, hahaha. Nesse processo tenho conhecido muita gente boa e talentosa, e também aprendi muito com as histórias que ouvi e vivenciei. Como são muitos projetos, eu me dedico mais e priorizo aqueles que acontecem em períodos em que não são tão recorrentes assim.

E seus planos e projetos futuros, pode nos dar uns spoiler? 
- Eu saí recentemente de um emprego que era bem diferente do que eu queria. Agora que surgiu essa oportunidade, vou me dedicar a trabalhar como Fotógrafa de retratos e poder ter uma renda tanto para vida pessoal quanto para projetos como poder cobrir pautas sociais e fazer mais publicações independentes, os Zines.

Fala um pouco sobre o projeto taças da favelas, e qual seu sentimento de está em um projeto tão grande?
- A Taça das Favelas é um projeto com o maior campeonato de futebol entre favelas do mundo. O torneio é realizado pela Central Única das Favelas (CUFA) e produzido pela In Favela empresa da Favela Holding. Aos finais de semana, os jogos são realizados no Centro Esportivo Vila Manchester, zona leste de São Paulo e seguem até a grande final em novembro. Totalizando mais de 100 favelas nas categorias masculina e feminina, os times disputam o campeonato afim de consagrar uma vitória, trazer visibilidade à sua comunidade, incentivar o apoio à prática do esporte e ainda quem sabe, revelar grandes talentos para o nosso futebol brasileiro. E eu tenho acompanhado faz uns anos e nunca tive a oportunidade de participar por causa da falta de flexibilidade do trabalho. Nesse ano em que consegui, para mim, tem sido a realização de um sonho poder registrar tudo que está envolvido nela, e tudo que o projeto apoia e sua potência. Poder registrar o sonho de outras pessoas, também é poder realizar o meu.


Hoje em dia, como você lida com a não valorização da sua profissão?
- Na verdade hoje para nós Jornalistas com todo o excesso de trabalho principalmente com as novas tecnologias que faz com que a gente esteja ligado em trabalhar o tempo todo, fora a violência que ainda nos persegue, é complicado. Precisa colocar na balança o que realmente está em jogo para exercer essa profissão assim como muitas outras. Eu não atuo mais diretamente ou trabalhando em uma empresa direcionada a minha profissão de formação, mas achei uma maneira de poder lidar com isso mesclando com as pautas que faço no dia a dia. 

Como lidar com os haters?
- Não lidando, hahaha. Graças a Deus não sou uma pessoa que possui haters diretamente. Mas já aconteceram episódios de fotos de manifestações que cobri em que a oposição veio forte no meu perfil criticar, inclusive tirando ele da rede, sobre o que estava sendo reportado junto com ofensas a minha pessoa. O hater nada mais quer do que chamar atenção e querer achar que está certo sobre aquilo. Nessas ocasiões apenas ignoro e não dou palco. 

Sua visão feminina, de como está o machismo na sua área de atuação profissional? Como é ser mulher e está em vários projetos onde é muito masculinizado ainda pela sociedade? 
- Hoje em dia está claro que existe um avanço apesar de que é bastante presente esse tipo de atuação. A questão é que muitas das vezes muito se fala e até ensina para as mulheres uma educação de como nós temos que lidar com isso, falando para ser forte, se impor mais diante disso, mas quase não se fala em como os homens podem contribuir com isso. É como se em todo lugar que formos que existe essa questão, a gente precisasse escalar um muro ou tentar derrubar ele, mas o outro lado também precisa estar disposto a querer nos ajudar e nos dar mais oportunidades.

Qual foi a fotografia que mais te marcou?
- A fotografia que mais me marcou foi uma foto que fiz da cobertura do ato do Dia Internacional da Mulher em 2019 na Avenida Paulista. Vou em protestos e atos desde 2013 que eram contra o aumento das passagens e desse ano foi o que eu pude fotografar pela primeira vez. Além de retratar tudo que estava acontecendo, e eu com toda a ansiedade, inseguranças, com essa foto pude mostrar um pouco sobre quem está na linha de frente e a imensidão de como estava aquele dia e o poder de luta que nós mulheres temos. Logo, essa foto teve uma repercussão e pôde ir para a página da Mídia Ninja que é um meio de comunicação independente. E eu que sempre defendi a mídia independente, e ter visto a minha foto ali pra mim foi o auge de onde poderia chegar, é como se minha foto tivesse sido capa do jornal The New York Times, hahaha.




Qual foi o jogo mais emocionante que você pode participar?
-
 Eu sempre gosto de falar que todos os jogos que vou são os mais emocionantes, como se fosse indo pela primeira vez sempre, haha. Mas se for para escolher, com toda certeza, são os jogos do feminino do Corinthians. Tem toda a questão da identificação, da luta por elas estarem ali representando da melhor forma possível o nosso time. A gente brinca que para elas não existem rivais, haha. Seja na Fazendinha, mas principalmente nas finais em que as brabas têm a  oportunidade de jogar na Neo Química Arena, ver o estádio lotado com todo mundo apoiando não tem igual.



 

E como é o dia a dia fotografando uma torcida organizada?
- É única, acho que nunca vou saber explicar mas acho que consigo transmitir um pouco do que é estar ali pelas fotos. Eu mesma quando comecei o projeto de fotografar a torcida organizada em 2019, não imaginaria que estaria tão rápido lá no meio da Pavilhão, da Gaviões, no Buso 77 da Estopim, é tudo muito louco o que está acontecendo e eu como torcedora é um sonho realizado estar vivendo tudo isso. É o que eu sempre quis. 



Conta um pouco dessa sua relação com o Corinthians, como tudo começou e como foi esse seu começo nas arquibancadas?
- Tudo começou quando meu pai, torcedor fanático pelo Palmeiras, me levou pela primeira vez ao estádio do Pacaembu para assistir Palmeiras x Corinthians. Acredito que se por um lado para mim foi marcante, para ele deve ter sido uma das piores escolhas da vida dele, primeiro porque ali houveram confrontos entre as torcidas e que trouxe uma grande preocupação pela nossa segurança, e segundo porque quando eu vi a torcida do Corinthians, foi ali que me encantou e me instigou a querer fazer parte, então para ele isso foi a pior das coisas que poderia acontecer, vendo sua própria filha torcer para o seu maior rival hahaha. Depois fui pesquisando mais sobre a história do Clube e decidi que tinha muito em comum com o que eu acreditava e defendia e estamos aí até hoje torcendo e incentivando muito.

Você sempre presente nos jogos da várzea, hoje em dia qual é seu sentimento vendo campeonato feminino de várzea com alta exposição como está sendo a taça das favelas?
- É simplesmente incrível, e tudo isso se deve ao fato do próprio projeto que os grandes times estão fazendo com o futebol feminino e que repercute pelo mundo do esporte. O sonho de nós mulheres e meninas de praticar o futebol sempre existiu, da mesma forma que sempre teve muita opressão em cima. Mas saber que tiveram e têm atletas que lutaram por nós, pela prática do esporte, tem fortalecido e incentivado muito a base para que as próximas gerações venham com força para disputar os campeonatos. Tudo isso reflete em como está sendo exposto nos jogos de várzea e na Taça das Favelas, que como exemplo, houve um aumento dos times do ano passado pra cá.

O futebol salva vidas?

- Literalmente salva. Eu mesma tenho vários exemplos de amigos e colegas que se salvaram por conta do futebol e do esporte de maneira geral. Não só por questões físicas, mas por questões sociais, a prática acaba afastando jovens e adultos de outros caminhos que não são as melhores alternativas para se viver, como o uso de drogas, a entrada pro crime, etc. É ali que cria o vínculo de ter amigos, uma competitividade saudável, e isso gera uma recompensa a longo prazo que beneficia não só a pessoa, como o coletivo do próprio lugar em que ela vive.

Como é para você relatar o sentimento de uma pessoa em um clique?
- É muito especial e desafiador transmitir isso através de um clique da forma como quero transmitir e de como realmente ele é ou acontece. O meu “segredo” para poder retratar isso dessa forma em que a foto parece ter “alma”, ou passar a impressão de que está “viva”, é também vivenciar tudo aquilo. Um exemplo claro é o pouco do que faço na arquibancada. Eu consigo passar esse sentimento através da foto porque nada mais é o que eu vivo. Mais do que nunca sou uma torcedora que canta, grita, pula, comemora, então sei muito bem as coisas que sinto ao estar ali. Tudo o que eu faço também é retratar a realidade. A arquibancada da Fiel Torcida é pulsando a todo momento. O resultado é o que vocês podem ver nas fotos.



Conta um pouco sobre os projetos sociais que você participa?
- Por enquanto, estou participando apenas da Taça das Favelas que já comentei um pouco e no decorrer do ano pretendo participar de outros que envolvem o esporte e arte de rua. 

Já sofreu algum tipo de assédio ou discriminação na bancada de um estádio ou na profissão?
- Já, apesar de ser um ambiente que para mim foi acolhedor, por outro lado ainda há aquele “costume” de que arquibancada não é lugar para uma mulher estar. Já ouvi isso várias vezes seja como um aviso, seja como forma de opressão. No caso da torcida do Corinthians, temos que lembrar que 53% é composta por mulheres, então querendo ou não, lá também é o nosso lugar sem sombra de dúvidas. E claro, tanto dentro como fora de estádio nós temos o cuidado de lidar com tudo isso.

A gente sabe que o futebol está cada dia mais elitizado, não vemos ingressos a R$10,00 como antigamente, o que tu acha que deve mudar para o futebol voltar para a mão do povão?
- Eu sou bem pessimista quanto a isso porque quem está lá em cima não liga para nós, essa é a verdade. Hoje discordo sobre essa mensagem que o Clube quer passar que é o “Time do Povo” mas que governa e se importa apenas com a elite da torcida. Para que o futebol volte para a “mão do povão” precisaríamos passar por cima de muita coisa e realmente chamar a torcida pra isso. Intensificar as manifestações, realmente mostrar para a torcida que isso é de nosso interesse e algo muito sério também. Claro que isso não vai acontecer da noite pro dia, mas como a própria federação vê que ninguém se manifesta de uma forma forte e recorrente, nada vai mudar, muito pelo contrário, a tendencia é que as coisas fiquem mais elitizadas.

Quando assunto é Corinthians, sabemos de toda a história dele, uma história que sempre visou a democracia o respeito ao próximo, o Cuca manchou essa história?
- Tentaram manchar, mas como chega no seu maior patrimônio que é a sua torcida, tudo fica diferente. Quem conhece a história do nosso Clube sabe muito bem o que seria o Cuca lá, por isso que graças a grande maioria, ele não conseguiu.

Quando Cuca foi anunciado, qual seu sentimento como mulher?
- Uma decepção e uma tamanha tristeza que não tem como mensurar. Apesar de que para a maioria de nós mulheres, não foi nenhuma surpresa visto que homens como ele sempre vão ter os seus empregos garantidos e vão poder ter uma vida normal.

Conta um pouco mais sobre a Camila, por trás das lentes? Fora do estádio, do seu trabalho, quais são seus princípios e valores que defende?
- A Camila por trás das lentes nada mais é que uma mulher muito sonhadora que acredita e quer aproveitar todas as oportunidades de fazer o que gosta enquanto faz essa passagem da vida neste planeta. E do mesmo jeito que ela acredita nisso, também quer que todas as pessoas tenham essa mesma oportunidade independente das condições que a sociedade tenta impor. 

Como foi seu primeiro contato com a NQA?
- Meu primeiro contato com a Neo Química Arena, foi em 2019 se eu não me engano no último jogo da temporada que foi Corinthians e Fluminense e também o último jogo que teria antes de tudo começar a ser fechado por conta da pandemia. Lembro do frio na barriga até hoje sobre a imensidão daquele lugar e foi a partir desse dia que deu o “start” para que eu começasse o meu projeto de fotografar a torcida.


E para finalizarmos, qual conselho você daria para uma menina que está começando a frequentar o estádio, e uma menina que quer começar uns projetos como os seus?
- O conselho que eu dou é para não ter medo e ficar sempre atenta com os tipos de contato que faz. Isso claro, para tudo na vida. A questão é não se deixar intimidar por essa questão, muitos não vão gostar porque não aceitam outras pessoas fazendo, assim como muitos vão amar porque você está lá fazendo. É saber discernir quem está com você. De modo geral, por experiência própria eu tenho muito mais coisas boas para falar sobre estar lá e estar fazendo isso do que contra. Apenas faça, com o material que tiver que tudo de bom que for para ser e vir, vai acontecer. E principalmente, viva! Viva toda essa experiência porque vale muito a pena.

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